quinta-feira, 10 de março de 2016

A Crise da Moçambicanidade feminina: o Caso de O Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane

Introdução

O Homem é um ser dotado de capacidades físicas, psicológicas, de censo moral que se traduzem em forma de identidade. A identidade é na óptica de GOMES (2004:103), o funcionamento do indivíduo no sentido biopsicossocial, suas emoções, pensamentos e comportamentos de acordo com o ambiente em que vive, com a sua maneira de entender o mundo e com sua genética. É o resultado das influências que o indivíduo pode ter do mundo que o rodeia. É uma característica peculiar que faz do ser humano uma entidade com autoestima e, a falta desta compromete a própria identidade, fazendo com que a pessoa aprecie o estranho ou simplesmente o que é do outrem em detrimento das suas próprias características naturais ou adquiridas através da cultura.
Nos países que foram colonizados pelos europeus, dos quais Moçambique faz parte, observou-se ao longo da história um processo de assimilação que consistia em o indivíduo sujeitar-se aos usos e costumes do colonizador, em consequência do sentimento de inferioridade ante ao colonizador e, como forma de resgatar a autoestima preferia abandonar a sua originalidade e passar a subestimar as pessoas da sua raça que não optassem pela mesma via de assimilação. Este fenómeno vitimou até algumas das personagens de O Alegre Canto da Perdiz, obra analisada na produção da presente monografia.
Na obra O Alegre Canto da Perdiz, Paulina Chiziane procura denunciar algumas atitudes impostas à mulher durante o período colonial, contudo, o encontro das culturas na colonização que desvirtuaram a figura da mulher fez com que ela mergulhasse numa crise de identidade, no mundo pós-independência que, entram em confronto com as tradições moçambicanas pondo em crise a identidade feminina, algo que motivou para a escolha da obra na nossa pesquisa.
Notámos ainda na obra que, cada uma das personagens é apresentada de tal maneira que não se relaciona com as outras, construindo identidades em conflito, sendo o cúmulo disto os abusos sexuais, casamentos prematuros misturados com a prostituição infantil, digamos que as personagens femininas mostram-se mais fragilizadas em relação às masculinas, uma abordagem que podemos considerar próxima à situação feminina vivida actualmente no nosso país.
Considerando que este estudo poderia ter um contributo nos estudos sociais, para se repensar o ser da mulher moçambicana, o seu lugar e papel na sociedade e sendo uma abordagem que contribuiria para a compreensão de uma das perspectivas possiveis de leitura da obra O Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane no que concerne a atitudes consideradas modernas, todavia, prejudicando a mulher moçambicana preocupou-nos perceber:
Ø  Até que ponto a modernidade na obra O Alegre Canto da Perdiz pode constituir crise da identidade feminina?
Na tentativa compreender o problema da nossa pesquisa, levantamos como hipótese, a seguinte proposição:
A Delfina, rejeitando o modo de vida africano vive um conflito identitário, na medida em que, ora comporta- se como branca ora como negra, e negando os valores do seu povo é capaz de forçar o marido a tornar- se sipaio e mudar os seus hábitos alimentares, educação dos filhos, mas, em contrapartida quando experimenta limites da sua ambição recorre ao currandeiro que é revelação de que na realidade ainda continua africana.
Neste contexto, Delfina entra num mundo moderno, proporcionando um choque com a tradição daquela região de Gurue, ao assimilar uma nova postura que se compara com a dos europeus, um comportamento que nos conduz a existência de uma crise de identidade.
Os elementos anteriormente mencionados contribuem para demonstrar o conflito entre as tradições africanas e as promessas advindas do sistema colonial, símbolo da modernidade. A falta de consciência desse conflito despertado pela existência de dois mundos, o da exclusão social da mulher nas tradições africana, a torna vulnerável ao aliciamento promovido pelas civilizações europeias, sinónimo de modernidade, sem que esteja devidamente preparada para o efeito resultando em desajustes.
Assim, de modo geral pretendemos como objectivo:
Ø  Compeender as manifestações da crise da identidade feminina em O Alegre Canto da Perdiz da Paulina Chiziane.

Mas a concretização do mesmo será possível por meio dos seguintes objectivos específicos:
Ø   Discutir o conceito de identidade em O Alegre Canto da Perdiz da Paulina Chiziane;
Ø    Descrever as manifestações das personagens masculinas e femininas que contribuem para a crise da identidade moçambicana em O Alegre Canto da Perdiz da Paulina Chiziane;
Ø   Demonstrar as implicações estético-existenciais do comportamento da maior parte das personagens masculinas e femininas na crise da identidade manifestada em O Alegre Canto da Perdiz da Paulina Chiziane.

Como estrutura esta Monografia apresenta três capítulos, antecedidos pela introdução, a saber: O primeiro com a revisão da literatura na qual apresentamos o estudo evolutivo dos conceitos da identidade que caracteriza o nosso problema; o quadro teórico onde trazemos a perspectiva assumida no estudo e a discussão dos conceitos básicos da pesquisa, o que nos deu suporte e garantiu a cientificidade do mesmo. No segundo capítulo, em que se encontra a metodologia que são todos os caminhos percorridos para a produção do nosso trabalho. No terceiro capitulo materializamos a nossa pesquisa pela demonstração das manifestações da crise da identidade a partir da obra e por fim apresentamos as conclusões conseguidas de acordo com os objectivos e hipóteses levantadas.






CAPÍTULO I: REVISÃO DE LITERATURA

1.1. A Mulher, a Identidade e Modernidade.

A identidade é um aspecto muito importante na vida de um indivíduo dado que cada pessoa desenvolve a sua própria identidade, e possuí características distintas relacionadas com a sua história de vida, que a diferenciam dos outros.
A fragilidade da identidade torna-se mais visível no confronto com as demais identidades , tal como afirma RICOEUR (2007:116), o que demonstra a dificuldade do ser humano em lidar com a diversidade e, isso acontece porque o sujeito, consciente de sua vulnerabilidade, julga que as diferenças dos outros ameaçam constantemente o seu singular modo de ser, com a finalidade de preservar sua identidade desses riscos que assombram o sujeito, ele prefere afastar de si o representante da diferença.
Na obra O Alegre Canto da Perdiz, a identidade constitui um problema uma vez que a personagem Delfina denúncia uma provável contradição no que tange a sua própria identidade, pelo facto desta demonstrar-se insatisfeita com a sua própria identidade negra em prol de ser branca e, por esse motivo, acaba procurando ter um filho branco para se aliviar da sua cor e do seu sofrimento.
O processo de construção de certa identidade pode-se considerar contínuo dado que, ao longo do tempo podemos deparar com situações conflituantes gerando crises de identidades e podem ocorrer em qualquer fase da vida, servem para restruturar a pessoa diante de um mundo em constante mudança, no entanto não deixam de ser consideradas crises.

1.1.1. O Apogeu da Crise da Identidade Feminina

Nesta parte trataremos da identidade feminina no contexto da cultura ocidental em comparação com a cultura moçambicana. No contexto da cultura ocidental, durante um longo período a mulher resumia-se em objecto de manipulação e dominação, projectada em papéis sociais e estereótipos estabelecidos pelo patriarcado, não podendo conservar seu nome nem possuir uma identidade, nem sequer uma história, ou seja, o espaço feminino, tanto social, imaginário ou o real, foi estabelecido pelos homens de acordo com os seus interesses, leis e valores que definiam as mulheres em seus únicos e possíveis papéis de mãe, esposa, filha.
Desta forma, as mulheres permaneceram sem identidade específica, marginalizadas e, por muito tempo, analfabetas. Não existia um sujeito feminino que se pudesse revelar, apenas experiências femininas culturalmente determinadas, enquanto os homens eram cercados de possibilidades de realização pessoal, profissional e social. Mediante a desvalorização prática e simbólica, o prestígio masculino e a sua identidade era conhecido é cada vez mais valorizada. 
Na antiguidade observou-se bastante a exclusão da mulher, mas, a partir do século XIX assinalou-se um momento histórico em que a prespectiva de vida da mulher começa a se modificar, permitindo que ela de alguma forma comece a se organizar na direcção de uma identidade com apoio de diversos movimentos sociais, políticos e económicos.
No século XX, assistimos ao processo que vai desencadear a busca de igualdade sendo que a mulher ascende socialmente; observa-se uma visão diferente daquilo que era na antiguidade e no período da escravatura em que as funções da mulher, particularmente a mulher negra incluíanm os serviços domésticos e sexuais prestados ao senhor (o branco) e a mulher moçambicana também foi vitima dessas situações devido ao domínio colonial.
Os materiais consultados revelam que em Moçambique, a preocupação com as questões de género não constitui novidade uma vez que os documentos que narram a história do país mencionam que durante a Luta de Libertação Nacional já era promovida a integração e participação activa da mulher através do Destacamento Feminino, não só em actividades produtivas e em acções de âmbito social, como também em frentes de combate, acreditando-se nessa época que a libertação do país só seria completa com a participação da mulher.
No período pré-independência, destacou-se a Liga Feminina Moçambicana (LIFEMO), que deu origem ao Destacamento Feminino (DF) em 1963 e a Organização da Mulher Moçambicana (OMM), em 1973, porém, segundo estes movimentos, este processo não era acompanhado por uma integração dos direitos da mulher nos planos político, económico e sociais e prevalecia a desigualdade de tratamento em relação ao homem, a quem tradicionalmente a mulher foi colocada numa posição de submissão.
Após a independência, a mulher moçambicana foi assumindo novos papéis, tornando-se parte importante na alfabetização, na escolarização, nos programas de assistência sanitária e de protecção materno-infantil, facto que criou um ambiente para o surgimento de mulheres responsáveis ao nível das aldeias e cooperativas.
Actualmente Moçambique lançou uma série de iniciativas com vista a fortalecer a igualdade de género e a aquisição de poder pelas mulheres. O Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA) destaca a necessidade de voltar a abordar a questão da desigualdade em termos de género, em particular na educação.
Dentro do Governo, a principal responsabilidade pela promoção da igualdade de género compete à Direcção Nacional da Mulher (DNM) que tem por objectivo coordenar as iniciativas com vista à integração do género e a promoção da aquisição do poder pelas mulheres nos diferentes ministérios e tendo elaborado uma Política Nacional de Género (PNG).
As iniciativas que têm sido implementadas são prejudicadas pela falta de instrumentos de análise, previsão e gestão de informação, designadamente no que respeita à análise do género, pesquisa sensível ao género e trabalho. Alia-se a este aspecto, a fraca capacidade das organizações da sociedade civil e à falta de coordenação entre grupos de interesse das mulheres. Com efeito, a reformulação da identidade feminina, restituindo-lhe seu poder tal como obseva em seus estudos, o historiador burkinês KI-ZERBO (2006:103) que ressalta os diversos papéis de poder já exercidos pelas mulheres na África tradicional em sectores como o da religião, da educação e da agricultura, na medida em que as actividades quotidianas levavam-nas a controlar numeroso saberes.
Segundo FREIRE (1999), a identidade pode se tornar um problema para o Homem quando não tiver consciência dos seus direitos e deveres de forma consciencializada com a realidade sócio-cultural. Assim, para percebermos é preciso pensar no lugar da formação e transformação do Homem como um sujeito crítico em frente duma sociedade em constante transformação, uma vez que entra em crise, face às demandas da modernidade.
Esta crise da identidade pode ser compreendida como um processo mais duplo de deslocamento e mesmo de fragmentação do indivíduo moderno, como afirma HALL (2003:9), em que o tal deslocamento entra em oposição às culturas do passado que a seu modo forneciam aos indivíduos fortes localizações sociais e, estando em crise, a identidade torna-se uma questão.
Ainda de acordo com o mesmo autor, o problema da identidade pode ser proporcionado por dois factores:
·         A exigência social e;
·         A insegurança pessoal.
Relativamente à exigência social há que referir que, pode ser pelo facto de as pessoas darem maior importância às melhores condições de vida e, por outro lado, coloca-se a questão de insegurança pessoal, isto é, o indivíduo caracterizar-se como variável e problemático, sem uma identidade fixa, tal como defende MERCEI apud HALL (2003) ao referir que a identidade só se torna um problema quando estiver em crise ou quando algo que se supõe ser fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza.

1.1.2. Será que Existe Crise de Identidade?

Identidade e crise de identidade são palavras e ideias bastante utilizadas actualmente e parecem ser vistas por sociólogos e teóricos como características das sociedades contemporâneas ou da modernidade tardia, no caso concreto a pós-modernidade.
Autores como GIDDENS (1990), argumentam que as crises de identidade são características da modernidade tardia e que sua centralidade actual só faz sentido quando vistas no contexto das transformações globais que têm sido definidas como características da vida contemporânea.
De acordo com ERIK ERIKSON citado por PERREIRA (2005), a crise de identidade é um tempo de exploração intensa das diferentes maneiras de olhar para si mesmo. Elas podem resultar de um cumprimento uno, a saida de casa dos pais ou de relacionamentos amorosos, troca de emprego, de acidentes ou mesmo do processo natural de envelhecimento.
 ROBINS (1997), por exemplo, aliado a ideia de GIDDENS, defende que o fenómeno da globalização envolve uma extraordinária transformação. Segundo este autor, a globalização envolve uma interacção entre factores económicos e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as quais, por sua vez, produzem identidades novas e globalizadas.
ANDERSON (1983) utiliza a expressão comunidade imaginada, para desenvolver o argumento de uma identidade nacional, observando que, a diferença entre as diversas identidades nacionais reside nas diferentes formas pelas quais elas são imaginadas. As identidades em conflito estão localizadas no interior de mudanças sociais, políticas e económicas, mudanças para as quais elas contribuem.
As identidades que são construídas pela cultura são contestadas sob formas particulares no mundo contemporâneo - num mundo que se pode chamar de pós-colonial. Este é um período histórico caracterizado, entretanto, pelo colapso das velhas certezas e pela produção de novas formas de posicionamento.
Nos anos 70 e 80, a luta política era descrita e teorizada em termos de ideologias em conflito, contudo, actualmente caracteriza-se, mais provavelmente, pela competição e pelo conflito entre as diferentes identidades, o que tende a reforçar o argumento de que existe uma crise de identidade no mundo contemporâneo.
É importante aferir que, a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado aliado às novas tendências, e estas, contribuiram para evolução dos povos africanos no que tange aos usos e costumes, especificamente para a elevação do estatuto da mulher, o que melhorou a sua identidade visto que actualmente notámos uma tendência evoluitiva no que diz respeito à valorização da mulher em cargos de maior responsabilidade bem como na incerção familiar ou social.
Nesta senda, reiteramos que a capacidade do individuo saber acomodar-se face às demandas da modernidade, de forma equilibrada, sem ignorar os seus valores morais é um aspecto pertinenete para que seja evitada a crise de identidade vivida actualmente pela mulher moçambicana que, ao tentar refazer a sua imagem, ela assume e incorpora novas vivências, de forma excessiva tornando- a vulnerável devido a sua ambição. Esta vulnerabilidade faz com que a identidade feminina esteja em crise.  

1.2. Discussão de conceitos

1.2.1. Identidade

Na óptica de GOMES (2004:103), “Identidade é o funcionamento do indivíduo no sentido biopsicosocial, suas emoções, pensamentos e comportamentos de acordo com o ambiente em que vive, com a sua maneira de entender o mundo e com sua genética”. É o resultado das influências que o indivíduo pode ter do mundo que o rodeia.
A posição deste autor mostra que a identidade é um elemento relativo, isto é, cada indivíduo manifesta a identidade de acordo com ambiente.
HALL (2005:49) argumenta que as identidades não são coisas com as quais os sujeitos nascem, mas são formadas e transformadas no interior da representação. As identidades não são heranças genéticas. As pessoas não são apenas sujeitos sociais legais, elas participam da representação em sua cultura.
O autor defende a questão de a identidade não ser algo inato, mas sim uma formação passível de transformações.
Para FREIRE (1979:43), a identidade se manifesta a partir das relações do Homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos actos de criação, recriação e decisão, ele vai dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura. [...] E, na medida em que cria, recria e decide, vão se conformando as épocas históricas. É também criando e decidindo que o homem deve participar destas épocas.
Em suma, analisando as três definições, trazidas pelos autores, percebemos que todos são unânimes ao considerar a identidade como algo que está dependente do Homem e do mundo que o rodeia, o que quer dizer que o Homem decide, cria e acomoda-se ao tipo de identidade que achar ideal embora HALL peque ao considerar que a identidade só pode ser adquirida, ele não inclui as características genéticas.
 E, simpatizamo-nos com a ideia de GOMES (2004), segundo a qual a Identidade é um conjunto de características que o Homem pode apresentar e que incluem emoções, pensamentos e comportamentos, dependendo do ambiente em que estiver envolvido.

1.2.2. Modernidade

Modernidade é, segundo GIDDENS (1991:11), o estilo, o costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência.
De acordo com o autor, a modernidade, rompe o referencial protector da pequena comunidade e da tradição, substituindo-as por organizações muito maiores e impessoais. O indivíduo sente-se privado e só, num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecidos em ambientes mais tradicionais.  
Para KUMAR (1997:79), a expressão modernidade designa todas as mudanças intelectuais, políticas e sociais que criaram o mundo moderno.
TOURAINE (1994:17), define modernidade como sendo a difusão dos produtos da actividade racional, científica, tecnológica, administrativa, marcada pela razão instrumental.
É de referenciar que estes autores olham para a modernidade como uma expressão que marca o início de uma nova fase na história de um determinado povo, caracterizado por mudanças radicais nas dimensões políticas, económicas, culturais e até sociais.

 1.2.3. Tradição

Do latim traditio, a tradição é o conjunto de bens culturais que se transmite de geração em geração, no seio de uma comunidade. Trata-se de valores que são conservados pelo facto de serem valiosos aos olhos da sociedade e que pretendem incutir às novas gerações.
A tradição é conforme GIDDENS (1990:37), um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer actividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes.
O mesmo autor desenvolveu a ideia de que a tradição pode ser vista como uma cola que une as ordens sociais pré-modernas, envolve, de alguma forma, controlo do tempo, é uma orientação para o passado, por isso, o passado tem uma pesada influência ou, mais precisamente, é constituído para ter uma pesada influência para o presente.  
A Tradição integra e monitora a acção à organização tempo-espacial da comunidade, ela é parte do passado, presente e futuro, um elemento intrínseco e inseparável da comunidade. Está vinculada à compreensão do mundo fundada na superstição, religião e nos costumes e pressupõe uma atitude de resignação diante do destino, o qual, em última instância, não depende da intervenção humana, mas sim da história.

1.3. Enquadramento de O Alegre Canto da Perdiz

A obra em estudo apresenta na sua capa três cores, a cinzenta em representação da raça negra, a branca em representação da raça branca e por fim a castanha que submete-nos a uma ideia de miscigenação de raças. No princípio contém o registo do nome da autora Paulina Chiziane, em seguida o título da obra O Alegre Canto da Perdiz, a imagem da perdiz que coincide com o título sugerido pela autora na obra, a indicação da edição (2ª), a editora (Ndjira). Enquadra- se no periodo da Pós- consolidação.
Na contracapa, apresenta-se um comentário deixado por Nataniel Ngomane para além da representação dos montes, que também aparecem no decurso da narrativa ao referir que os montes Namuli são o ventre do mundo.
A obra O Alegre Canto da Perdiz, foi publicada em Maputo, tendo sido a 1ª edição no ano de 2008 e em 2010 a 2ª edição. É composta por 355 páginas divididas em 35 capítulos.
Paulina Chiziane, nascida em Manjacaze, Província de Gaza no sul de Moçambique, em 1955. Viveu sua infância no campo (sua família falava as línguas chope e ronga), aprendendo o português somente na escola e depois mudou- se para os subúrbios de Maputo. Iniciou o curso de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), porém não o concluiu.
Chiziane é considerada a primeira romancista negra moçambicana, contudo ela não assume este título, mas sim, auto define-se como uma contadora de estórias, dado que, segundo ela, as suas primeiras inspirações vêm dos “contos a beira da fogueira”. Para além da obra em análise, publicou também: Na mão de Deus (2013), Niketche. Uma história de poligamia (2002), O Sétimo Juramento (2000), Ventos do Apocalipse (1993), Balada de Amor ao Vento (1990)
. Em 2015 lançou o projecto África Lliberta- te em coordenação com o grupo cultural Timbila Muzimba e a obra Ngoma Yetho feita em co-autoria com Maria Martins.
Na sua obra retrata frequentemente temas relacionados com as vivências de tempos difíceis, da esperança, do amor, da mulher e de uma África passada e presente, um país destruído, da miséria de seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte.
A Obra em análise tem como título O Alegre Canto da Perdiz, sobre o qual a autora, numa entrevista a Gil Filipe no Jornal Notícias em Maio de 2008 afirma: “Dizem umas vozes muito idosas (...) que os montes Namuli foram criados no ovo de uma perdiz. Então, é daí que achei formidável criar o título a partir desta mitologia e destas estórias de uma terra também formidável.” (CHIZIANE apud. BRAGA, 2008).
Falando especificamente, nesta obra levanta questões para reflexão sobre a realidade das sociedades africanas: relações entre dominados e dominadores, conflitos intra e inter-étnicos, choque de interesses do universo colonial, ou seja, mecanismos de sustentação e reprodução, dominação, coacção e exploração (racismo, assimilação, casamento prematuro, a prostituição infantil, conflitos de gerações, violência doméstica, mestiçagem, discriminação ético-racial e de género, embate entre culturas, relações de poder), diversos mitos de origem matriarcal africano, portanto, faz uso de personagens com destaque a Delfina, Serafina, Maria das Dores, mulheres marcadas e dominadas por uma sociedade que lhes reduz as possibilidades individuais para além de José dos Montes e Soares.

1.4. Síntese da obra O Alegre Canto da Perdiz

O romance começa com Maria das Dores, que caminhou solitária durante tantos anos a procura de seus três filhos: Benedito, Fernando e Rosinha. Feita uma louca, dirige-se até às margens do rio Licungo, onde tomou banho nua, transgredindo a norma daquela região de Gurue.
A atitude de Maria das Dores colocou em pânico as mulheres da região que, furiosas e assustadas devido aos mitos que envolvem as suas mentes, tentaram expulsa-la atirando pedras e paus, contudo, ela limitava-se a olhar para a multidão.
Enquanto as multidões se preocupavam com a sua nudez, Maria das Dores ficava meditando acerca dos que perguntavam de onde vinha, gritavam sobre a sua própria desgraça e lhe chamavam de louca. Ela considerava loucas aquelas mulheres prisioneiras, cobertas de mil peças de vestuário como cascas numa cebola. 
Após várias insistências, as mulheres decidiram ir à casa do régulo para abordar a situação da louca do rio à sua esposa e esta, por sua vez, apaziguou a tempestade contando histórias explicando também que a mulher trazia uma boa nova escrita do avesso, não se tratava de nenhum presságio ou anúncio de seca.
Os dias passaram e a cidade de Gurue tornou-se um lugar de peregrinação. Para além da Maria das Dores, chegaram dois irmãos: o Padre Benedito e o Dr. Fernando que tinham também algum motivo de espanto, pois, eles apesar de estarem envolvidos num mundo moderno, estavam despidos de sentimentos mundanos, de posses, de beleza das mulheres e vaidades do quotidiano, por essa razão, as mulheres enchiam-lhes de perguntas na tentativa de perceber se eram homens e de onde vinham.
Delfina, mãe de Maria das Dores, em princípio casara com José dos Montes com quem gerou os dois filhos negros (Maria das Dores e Zezinho). Pela sua ambição obrigou ao seu esposo a desenvolver actividades de sipaio o que fazia com que fosse tratado como assimilado, passando a desprezar a sua raça e a renegar todas as instituições, usos e costumes do grupo no que se refere à língua, religião, vestuário e alimentação.
José dos Montes, destacado como um dos melhores soldados ou sipaios, ao serviço do salazarismo e do colonialismo, teve que exercer suas actividades longe de sua família, o que contribuiu para que Delfina sua esposa, mesmo sendo negra tivesse um envolvimento com o Português Soares (colonizador).
Da relação entre o branco e a negra nasceu uma mulata (Jacinta) terminando desta forma o casamento com José dos Montes, o negro assimilado e, por essa razão, Delfina decide unir-se ao Português apesar de ser casado, com ajuda de bruxaria de Simba que, para além de feiticeiro, fora também seu amante.
Assim, Delfina ganhou a vida luxuosa de que tanto sonhava desde a adolescência, isto é, casar com um branco, ter filhos brancos e ter uma vida de princesa. Passou a vida a descriminar raças, até aos seus próprios filhos, tinha actividades e direitos diferentes: aos dos filhos negros, Maria e Zezinho, competiam os serviços de casa enquanto aos filhos mulatos competia estudar, pois, segundo ela, os pretos não precisavam de escola.   
A vida de princesa durou pouco tempo. Arrependido, Soares despediu-se de Delfina e voltou para sua casa deixando toda herança para os filhos mulatos e negros, portanto, Delfina passou dificuldades financeiras que conduziram- lhe ao velho Simba para mais uma bruxaria, mas este se recusou pedindo em troca algo valioso e fragilizada, a mulher ofereceu a virgindade de sua filha Maria das Dores o que em nada resultou.
Casada com Simba a favor da mãe, Maria teve três filhos, os quais foram mencionados no princípio da história. Pelo sofrimento, decidiu fugir até aos Montes Namuli, aonde seus filhos vieram a ser criados por uma freira.
Os irmãos de Maria das Dores foram também criados na casa das Irmãs até que Jacinta se casou com um branco. Delfina perdera deste modo os quatro filhos. Foi enfrentada por sua filha Jacinta em pleno dia do casamento por ter vendido a irmã Maria das Dores e expulsa da Igreja pela imoralidade. Já pensava nas suas maldades, mas, era tarde, tinha ficado solitária.
 Passaram trinta anos, José dos Montes reconciliou-se com Delfina, Maria das Dores encontrou os seus filhos. Simba reencontra os filhos e sua esposa, juntos formaram uma família.



CAPÍTULO II: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.1. Tipo de Pesquisa

No presente trabalho, propusemo-nos a estudar a Crise da moçambicanidade Feminina em O Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane e, para o efeito, adoptámos a pesquisa qualitativa porque expressa o sentido dos fenómenos do mundo social para além de que a natureza dos dados a serem explorados não são matemáticamente mensuráveis, isto é não precisaremos medir os dados colectados, uma vez extraídos da obra e, conferido por ARAUJO e OLIVEIRA, (1997:10), esta pesquisa traz consigo, técnicas interpretativas para a descrição e descodificação dos componentes de um sistema complexo de significados.

2.1.1. Métodos de abordagem

O método de abordagem privilegiado nesta pesquisa é o hipotético-dedutivo visto que, para analisarmos o comportamento das personagens duma obra em função do tema colocado, adiantamos as nossas percepções sobre o fenómeno que nos propomos discutir e em seguida deduzimos algo, isto é, criamos ilações e aliada à ideia anterior, MARCONI & LAKATOS (2009:145), colocam o método hipotético-dedutivo como o que “inicia pela prospecção de uma lacuna no conhecimento, acerca da qual se formulam hipóteses. Pelo processo de inferência dedutiva, testa a predição da ocorrência de fenómenos descritos pela hipótese”.
No caso específico da obra O Alegre Canto da Perdiz, partiremos de algumas deduções constatadas através do percurso das personagens, como o caso da fragilidade apresentada por personagem Delfina que, pensamos numa possibilidade de abandono do normal tradicional da sua região, neste caso Moçambique, para abraçar uma forma de vida que coloca em crise a sua identidade e a partir deste pressuposto traremos as possíveis conclusões sobre o tema.

 2.1.2. Método de procedimento

Para a análise desta obra, o método é monográfico (estudo do caso), pois, faremos um estudo da crise da moçambicanidade feminina na obra O Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane, bem como a pesquisa bibliográfica que garante nos a cientificidade da abordagem, o que contribuirá na colocação das nossas opiniões, tendo em conta que,  de acordo com GRESSLER (2003:87), num estudo cientifico não se deve pautar somente pela colocação de opiniões pessoais  a cerca dos dados em análise. 

2.1.3. Metodos de recolha de dados

Baseado na pesquisa bibliogáfica, segundo REIS (2010:106) consistiu na leiturificoa e fichamento de todo material relacionado com a identidade e crise da identidade feminina, de seguida realizamos a pesquisa documental que, é um processo de leitura e recorte de extractos que abordam de forma particularizada o complexo de inferioridade como identidade, o conflito entre modernidade e tradição bem como a descrição das caracteristicas da crise da identidade das personagens apresentadas no decurso do romance O Alegre Canto da Perdiz da Paulina Chiziane,tendo em conta os dezasseis capitulos narrados na obra de  um universo de trinta e cinco e, finamente a comparaçao dos factos com realidade actual vivida em Mocambique, de modo a descobrirmos o seu impacto na tradição local, e como forma de garantir a cientificidade da pesquisa foi necessário visitar e cruzar matérias de teóricos que tratam deste tema.

2.1.4. Método de análise de dados

Para levar a cabo a nossa pesquisa, pautamos pela análise de conteúdo, tal como sugerem OLABUENAGA e ISPIZÚA, citados por MORAES (1994) é uma técnica para ler e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos, que analisados adequadamente nos abrem as portas ao conhecimento de aspectos e fenômenos da vida social de outro modo inacessível.
A nossa análise tal como sugere MORAES (1994) passou em principio pela preparação das informações referentes à identidade e da crise de identidade feminina na obra O Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane que consistiu na seleção de passagens textuais com essas marcas, seguidamente agrupamos os conteúdos em unidades bem como a classificação das mesmas em categorias sendo: (i) o complexo de inferioridade como identidade, (ii) a modernidade como o ponto mais alto da crise de identidade , (iii) as marcas da crise de identidade para posterior descrição de um dos  elementos que propusemonos a estudar que teve como base a interpretação de todos extractos retirados da obra, isto é,  expressamos os significados captados e intuídos nas mensagens analisadas, por fim a Interpretação feita através de uma exploração dos significados expressos nas categorias da análisadas.

CAPITULO III. A CRISE DA MOÇAMBICANIDADE FEMININA ALEGRE CANTO DA PERDIZ DE PAULINA CHIZIANE

 3.1. O complexo de inferioridade como identidade

Todo povo colonizado desenvolve um complexo de inferioridade em decorrência da destruição de sua própria cultura. No entanto, antes de exterminar a cultura do outro, o colonizador europeu construiu a sua identidade servindo-se de modelos fixos e imutáveis. Além do esforço para apagar a história dos povos oprimidos, o colonialismo europeu procurou inferiorizar seus hábitos, costumes, alimentação, as vestes, língua entre outros, ao mesmo tempo em que exaltava a cultura do colonizador. Deste modo, o nativo africano, por exemplo, era pensado e representado pelo europeu ora como um bom e inocente selvagem, porém incapaz de cuidar de si mesmo, ora como uma criatura bestial e perigosa que precisava ser controlada. Assim, tanto a visão que bestializa quanto a que infantiliza o oprimido, justificaram as atitudes tomadas pelos colonizadores com o intuito de subjugar as populações bárbaras. (BHABHA, 1998:105)
 Considerando que a vida do negro africana dominada gira em torno de buscar identificar-se com o branco, tentando deixar no máximo possível de ser parecido com o negro pelo abandono de seus costumes e pela negação de sua cultura, isto é, de afirmar-se perante o branco, há que evidenciar que, a busca constante de identificação com o branco é uma característica da protagonista do romance em estudo que, de tanto acreditar na superioridade dos brancos procura identificar-se com o mesmo.  
O meu estatuto é maior a partir de agora! Mãe de mulata. Concubina de um branco... Erguerei esta criatura como uma bandeira branca, acenar aos marinheiros e dizer: sou vossa! Juntei o meu sangue ao vosso na construção de uma nova raça (CHIZIANE, 2010:193).
O complexo de inferioridade é revelado ainda no romance com a atitude de Serafina, mãe da protagonista, ao incentivar a sua filha a não casar-se com um negro, contudo, há aqui um preconceito caracterizado por atitudes ou comportamentos negativos da parte de um indivíduo direccionados a outros indivíduos ou grupos e baseados num julgamento prévio, neste caso, a inferioridade dos outros está baseada em atributos morais conferidos a um grupo de pessoas que possuem características físicas semelhantes, por isso, o poder colonial em O Alegre Canto da Perdiz precisou reforçar cada vez mais a diferença do outro e fazer com que ela fosse vista como marca de inferioridade. 
 Outra marca de inferioridade, descrita na obra é a política assimilacionista de Portugal que, previa a colonização do indígena por meio de dois pilares: educação e trabalho, onde a educação ficou quase exclusivamente a cargo da Igreja Católica. A essa instituição cabia preparar, desde cedo, o aspirante à assimilação para tornar-se um bom cidadão pelo ensino que compreendia leitura e escrita em LP e o aprendizado das ‘artes e ofícios’ (trabalhos manuais considerados importantes na Colónia). O futuro assimilado deveria, a partir desse momento, abandonar o uso da língua materna e se esforçar para aprender a língua da Metrópole, considerando que ela era mais evoluída.
Então, o romance de Chiziane mostra a história do negro José dos Montes que na companhia de sua esposa Maria das Dores, vislumbra na assimilação a possibilidade de ingresso nos trabalhos e cargos reservados, até então aos brancos. Jura, renuncia, mata tudo para nascer outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença. Vamos, queima os amuletos, os velhos altares e os velhos espíritos pagãos… (CHIZIANE, 2010: 123).
Há que referir que, a política assimilacionista portuguesa em Moçambique, provocou crise da identidade do sujeito colonizado que, a partir daí não pertencia a nenhuma das categorias que formavam a sociedade que integrava. Na falta de uma identidade que o enquadrasse dentro do sistema vigente, o assimilado precisou buscar uma categoria na qual se encaixasse. Surge então uma terceira categoria de indivíduos: a do nativo que não faz mais parte de um grupo étnico tradicional e também não é um cidadão português pleno.
Apesar de ter-se transformado num negro assimilado, trata-se ainda de um cidadão de segunda classe, um cidadão de categoria inferior tendo em conta que não consegue alcançar o objectivo de se identificar com os colonizadores, pois para eles continua sendo o outro.
O racismo foi utilizado para explicar as desigualdades sociais e económicas que excluíam a maior parte da população colonial e legitimar o direito do europeu, de explorar as populações dominadas, por isso, o poder colonial precisou reforçar cada vez mais a diferença do outro e fazer com que ela fosse vista como marca de inferioridade. No caso das populações negras, além de costumes, tradições, língua e alimentação diferentes, há uma marca distintiva que é automaticamente vista e estigmatizada: a cor da pele.
    Vais casar com um preto… Com tantos brancos que te querem bem. Não custa nada eliminar a tua raça para ganhar a liberdade. Temos que resistir, Delfina, temos que resistir. Temos que nos submeter à vida que nos impõem, acreditar no Deus deles, esse ser invisível e sem forma concreta. (CHIZIANE, 2010:106)

3.2. A modernidade: Ápice da crise da identidade feminina

O papel social da mulher torna-se subjectivo na medida em que, vai incorporando novos hábitos, novas vivências e outra forma de estar na sociedade, o que remete-nos a uma nova forma de estar e ser da mulher devido a coabitação de novas formas de estar da sociedade, traços obtidos com o contacto de novos povos, abandonando deste modo a cultura tradicional, passando a vigorar as novas vivências. Neste contexto, nota-se na obra O Alegre Canto da Perdiz, um abandono passivo da sua própria cultura, aliado as discrepâncias social negro/ branco em que o ser branco é visto pelas personagens feminas, como algo moderno e respeitado.
   Lembra-se de tudo, da terra e do mundo. Onde a cultura dita tudo sobre homens e mulheres... o dinheiro vale mais que a vida... o mulato vale mais do que o negro e o branco vale mais mais do que todos eles... a cor e o sexo determinam o estatuto de um ser humano. (CHIZIANE, 2010: 28)
Nota-se ainda na obra que, a modernidade não caracteriza apenas a personagem Delfina, trata-se dum legado que domina até a sua própria mãe Serafina, embora com certa resistência pois ela pensa numa mudança mas, conserva na sua consciência o valor da sua identidade. Porque não me fizeste com um branco, mãe?Felizes são as mulatas e brancas, que nasceram com diamantes no corpo... Para quê essa tortura? És preta e ainda bem. (CHIZIANE, 2010: 88)
Ainda na obra O Alegre Canto da Perdiz, Maria das Dores, filha de Delfina... uma mulher... colocando sua intimidade na frescura do rio... (CHIZIANE, 2010: 12) é uma ilustração das formas modernas femininas que caracterizam a maior parte das mulheres moçambicanas, referimo-nos às formas de vestir e ao seu comportamento que podem ser considerados modernos num universo, que é a sociedade detentora daquilo que são as normas fixas desta, as quais quando deslocadas criam um problema na identidade, sobretudo a desta mulher.

3.3. A Crise de Identidade Feminina

Em Moçambique tal como se ressalta na obra, assistimos cenas femininas, semelhantes ao comportamento de Maria das Dores, questionadas pela sociedade, que para elas nada esteja fora do padrão é apenas uma forma globalizada do mundo, ao que podemos chamar modernidade... Porque estás nua?... Sera que estou nua mãe? A nudez que elas viam não e a minha e a delas... elas... cobertas de mil peças de roupa como cascas de cebola. Com calor que faz. (CHIZIANE, 2010: 17)
Apesar das recomendações da mãe, Delfina insiste casando com José dos Montes e convence-o no a transformar-se num assimilado, ainda que para isso tenha que eliminar os traços de sua etnia e história, perseguir seu povo e renegar suas tradições, trocando, por exemplo, o uso da língua materna pela do colonizador, mudando sua maneira de vestir e de se portar, ela sabe, no entanto, que a assimilação não chega a ser suficiente para garantir-lhe a liberdade e a vida moderna que sempre sonhou e, por isso acaba gerando um filho mulato, fruto de uma traição. Sei onde ir buscar a fortuna que precisamos meu amor... Sim. Basta sermos assimilados do regime. É a única saída... A assimilação era o único caminho para a sobrevivência (CHIZIANE, 2010: 122-123).
É compreensível a recusa do pai de Delfina em se assimilar, pois apesar de significar um futuro melhor para a família, esse processo representava uma humilhação para os nativos, mais que isso, representava o total aniquilamento do indivíduo. Consistia em um ritual, no qual o chefe de família comparecia perante uma autoridade da Metrópole devendo prestar um juramento em que negava e repudiava todos os costumes e valores tradicionais, passando a assumir a cultura europeia, facto que era extremamente degradante para o indivíduo que fora criado dentro de uma sociedade que preza sobre todas as coisas, a tradição passada através das gerações.
Ao confrontar-se com o ‘não lugar’, ‘não ser’, ‘não pertencer’ ou falta de identidade dentro das categorias sociais até então disponíveis, é impelido a procurar uma identidade a que possa se acomodar, não sem antes lutar com uma imensidão de sentimentos conflituantes. É o que acontece no romance com José dos Montes ao ser contemplado pela mulher.
 ...jura mata a tua língua bárbara, jura, renuncia, mata tudo para nascer outra vez... O oficial entregou um envelope lacrado contendo dinheiro para comprar roupas condignas com o novo estatuto. Muito dinheiro. Delfina observa o marido a mudar de identidade, como uma cobra na mudança de uma estação. Arregalava os olhos e soltava suspiros de cada vez que trajava mais uma nova peça (CHIZIANE, 2010: 124).
A vida de Delfina e José dos Montes passa a partir destes episódios por uma fase que é considerada crise, a identidade torna-se uma questão proporcionada pela exigência social e pela insegurança pessoal. (HALL, 2003: 9).
A escritora remete-nos ainda a uma situação de um sujeito colonizado, neste contexto a mulher moçambicana que passa por processos de submissão, opressão e o conformismo diante das imposições sociais, tendo em conta a história de Maria das Dores que, vendida aos 13 anos por sua mãe a um feiticeiro, suporta anos de violências físicas e psicológicas nas mãos desse homem, factores que somados a outros eventos desencadeiam a loucura na personagem... que vendeu a virgindade da filha para melhorar o negócio do pão. (CHIZIANE, 2010: 305).
Face a estas circunstâncias, Maria das Dores agiu feita uma louca, caminhando até a margem do rio Licungo, onde fez um mergulho desviando as normas daquela região...essa mulher que tem a coragem de se banhar num lugar privado dos nossos homens, quebrando todas as normas do local, quem é? (CHIZIANE, 2010: 12)
A atitude da louca do rio, tal como era tratada numa primeira fase pela multidão da região de Gurue, pode ser analisada em duas perspectivas, em principio uma forma de estar que acomoda a personagem e em segundo lugar como uma perda no que diz respeito aos valores morais da região, isto é, a mulher quebrou a tradição, razão pela qual a multidão de mulheres faz um discurso crítico a esta atitude.      
                            As mulheres preparam o sermão do momento, feito de ameaças... Quem és tu? Insistiam as mulheres furiosas... As pessoas gostam de identidades... mulher não tens vergonha na cara? Não tens pena das nossas crianças cegarem com a tua nudez? (CHIZIANE, 2010:14)
É curioso que enquanto o povo se preocupava em questionar a sua identidade, em resposta metafórica diz ser uma estátua de barro, isto é, reconhece que é negra apesar das suas diferenças, essa é a sua própria identidade... já sei bem de onde vim...querem saber o que sou, porque nada sou...quem sou eu? Uma estátua de barro no meio da chuva... odeio a roupa que me limita o voo. (CHIZIANE, 2010: 17)
Estamos conscientes de que as trocas culturais entre os africanos, asiáticos e europeus foram um dos factores que também se reflectiu na forma de vestir, que se arrasta desde o período da colonização e, ainda mais, actualmente a mulher moçambicana vive essas transformações, face às demandas da modernidade pondo em crise a sua identidade, visto, ela ser a maior vítima em relação ao género masculino o que continua sendo questionado pela sociedade e, na obra O Alegre Canto da Perdiz a personagem Maria das Dores é o nosso ponto de referência. Quem é ela?... uma mulher negra, tão negra como as esculturas de pau- preto...De onde veio? (CHIZIANE, 2010: 17)
 Outro sinal de crise, é o facto de a mãe da Delfina ficar indecisa em relação ao destino da sua filha que, para ela parecia ser o sinal de quem ficasse restrito à convivência entre moçambicanos bem como uma espécie de candidatura para gerar mais pretos e mais desgraças,   Casar?... A mãe solta um grito de espanto. Amargo espanto como se uma espinha se entalasse na garganta... melhora a tua raça, minha Delfina!...casar com um preto?(CHIZIANE, 2010: 96). Interagir com os brancos era render-se à transformação social, ainda que sob a condição irrefutável de apagamento de todas as tradições, valores e crenças e, José não sendo branco, não podia casar com a filha uma vez que, o preto era um individuo na condição de condenado.
.... o estigma da raça deixou sementes cancerigenas, que se multiplicam como a raiz de um crâncro e, matarão gerações, mesmo depois da partida dos marinheiros... Descobre em si um pobre preto candidato a noivo, de mãos vazias, sem anel, nem carteira. Os calções de condenado nem se quer tinham bolsos (CHIZIANE, 2010:97).
O problema das raças evidencia também as crises identitárias, através das personagens narradas na obra, como podemos observar a situção passada por Delfina durante a sua infância.
A confusão de raças na sua mente de criança, de baixo do mesmo tecto, numa mistura difícil de misturar, como leite e limão numa mesma chávena... a tua família onde está? …no dia em que o pai negro partiu minha mãe não chorou. Embriagou - se... no dia em que o meu pai branco partiu a minha mãe chorou e desmaiou. (CHIZIANE, 2010: 31)
Essa mistura de raças faz com que as personagens revelem uma atitude optimista, Delfina que é protagonista no romance O alegre Canto da Perdiz, fica num dilema de identidades, ao lado dos negros é negra e ao lado dos brancos é também branca, encontra-se numa crise identitária, neste caso, resultante da convivência familiar. Para ela a experiência do ocidente é melhor que a das suas próprias origens como podemos observar nas suas palavrs... mas tudo começou no dia em que o pai negro partiu para não mais voltar... quando o pai branco amou a sua mãe... quando nasceu a sua irmã mulata... (CHIZIANE, 2010:12)
  








CAPITULO IV. CONCLUSÕES e Sugestões

De acordo com os objectivos e hipóteses que definimos no início desta pesquisa e olhando para a fundamentação teórica dos diversos autores que nos subsidiaram sobre o conceito de identidade no geral e a feminina, em particular, de que nos socorremos e analisada a obra O Alegre Canto da Perdiz da escritora moçambicana Paulina Chiziane, chegamos às seguintes conclusões:
  • A crise da identidade feminina manifesta-se em quase todas as personagens femininas narradas na obra, contudo, é mais evidente com a Delfina, que regeitando o modo de vida africano vive um conflito identitário, comportando- se num momento como branca e noutro como negra, forçando o marido a tornar- se sipaio e mudando os seus hábitos alimentares, educação dos filhos, vestes, contudo, em caso de problemas s­érios recorre ao currandeirismo que é mesmo, um sinal de reconhecimento ao valor da sua cultura.
·         A colonização teve um impacto positivo para as sociedades colonizadas, particularmente a moçambicana, na medida em que na sequência do cumprimento e da satisfação das suas intenções de ganhar a mão-de-obra barrata, às pessoas passaram de iletradas para alfabetizadas, e ao mesmo tempo passaram de uma religião tradicional africana para o catolicismo;
·          A colonização teve um impacto negativo ao incutir nos nativos o espírito de desvalorização dos seus traços naturais, desde a cultura língua, a maneira de vestir, alimentação. Antes de exterminar a cultura do africano, o europeu construiu a sua identidade servindo-se de modelos fixos e imutáveis. Deste modo, o nativo africano, por exemplo, era pensado e representado pelo europeu ora como um bom e inocente selvagem, porém incapaz de cuidar de si mesmo, ora como uma criatura bestial e perigosa que precisava ser controlada;
·         No âmbito da modernidade, a mulher encontra-se numa situação mais vulnerável relativamente ao homem, uma vez que para além da assimilação propriamente dita, ela passa por situações embaraçosas, incluindo a prostituição infantil e casamentos prematuros;
·         A crise de identidade pode ser provocada pela incapacidade do indivíduo de se manter na sua origem, por causa da falta de auto- estima, desvalorizando-se a si próprio e procurando adoptar aquilo que acha como modelo e mais importante, neste caso a raça e a vida do colono;
·         O problema da identidade pode ser proporcionado por dois factores: a exigência social e a insegurança pessoal; 
·         A narrativa da Paulina Chiziane coloca-nos a recordar a história dos povos moçambicanos e as situações que estes sofreram advindos do sistema colonial.

Sugestões:

  • Que os professores da LP ou literatura e História mostrem detalhadamente aos alunos o historial dos povos colonizados, particularmente os moçambicanos e o processo de assimilação pelo qual muitos passaram;
  • Que explicitem as consequências sociais que a assimilaçao trouxe aos moçcambicanos, com destaque a quebra da autoestima e a consequente crise da identidade;
  • Que mostrem a vulnerabilidade da mulher ate aos dias de hoje, na adopção do alheio em detrimento da sua realidade natural (como por exemplo, o uso de maquilhagens, de cabelos que vulgarmante chamamos de estenções tudo uma das formas de assimilação);
  • Que as instituições de tutela principalmente as vocacionadas com o trabalho com as mulheres, implementem programas culturais e de educação moral e civica tendentes ao resgate e manuntenção das qualidades da identidade moçambicana.





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