Introdução
O Homem é um ser dotado de capacidades
físicas, psicológicas, de censo moral que se traduzem em forma de identidade. A
identidade é na óptica de GOMES
(2004:103), o funcionamento do indivíduo no sentido biopsicossocial, suas
emoções, pensamentos e comportamentos de acordo com o ambiente em que vive, com
a sua maneira de entender o mundo e com sua genética. É o resultado das
influências que o indivíduo pode ter do mundo que o rodeia. É uma característica
peculiar que faz do ser humano uma entidade com autoestima e, a falta desta
compromete a própria identidade, fazendo com que a pessoa aprecie o estranho ou
simplesmente o que é do outrem em detrimento das suas próprias características
naturais ou adquiridas através da cultura.
Nos países que foram colonizados pelos
europeus, dos quais Moçambique faz parte, observou-se ao longo da história um
processo de assimilação que consistia em o indivíduo sujeitar-se aos usos e
costumes do colonizador, em consequência do sentimento de inferioridade ante ao
colonizador e, como forma de resgatar a autoestima preferia abandonar a sua
originalidade e passar a subestimar as pessoas da sua raça que não optassem
pela mesma via de assimilação. Este fenómeno vitimou até algumas das
personagens de O Alegre Canto da Perdiz,
obra analisada na produção da presente monografia.
Na obra
O Alegre Canto da Perdiz, Paulina
Chiziane procura denunciar algumas atitudes impostas à mulher durante o período
colonial, contudo, o encontro das culturas na colonização que desvirtuaram a
figura da mulher fez com que ela mergulhasse numa crise de identidade, no mundo
pós-independência que, entram em confronto com as tradições moçambicanas pondo
em crise a identidade feminina, algo que motivou para a escolha da obra na
nossa pesquisa.
Notámos ainda
na obra que, cada uma das personagens é apresentada de tal maneira que não se
relaciona com as outras, construindo identidades em conflito, sendo o cúmulo
disto os abusos sexuais, casamentos prematuros misturados com a prostituição
infantil, digamos que as personagens femininas mostram-se mais fragilizadas em
relação às masculinas, uma abordagem que podemos considerar próxima à situação
feminina vivida actualmente no nosso país.
Considerando que este estudo poderia ter
um contributo nos estudos sociais, para se repensar o ser da mulher
moçambicana, o seu lugar e papel na sociedade e sendo uma abordagem que
contribuiria para a compreensão de uma das perspectivas possiveis de leitura da
obra O Alegre Canto da Perdiz de
Paulina Chiziane no que concerne a atitudes consideradas modernas, todavia,
prejudicando a mulher moçambicana preocupou-nos perceber:
Ø Até que ponto a
modernidade na obra O Alegre Canto da Perdiz pode constituir crise da
identidade feminina?
Na tentativa compreender o problema da
nossa pesquisa, levantamos como hipótese, a seguinte proposição:
A Delfina, rejeitando o modo de vida
africano vive um conflito identitário, na medida em que, ora comporta- se como
branca ora como negra, e negando os valores do seu povo é capaz de forçar o
marido a tornar- se sipaio e mudar os seus hábitos alimentares, educação dos
filhos, mas, em contrapartida quando experimenta limites da sua ambição recorre
ao currandeiro que é revelação de que na realidade ainda continua africana.
Neste contexto, Delfina entra num mundo
moderno, proporcionando um choque com a tradição daquela região de Gurue, ao
assimilar uma nova postura que se compara com a dos europeus, um comportamento
que nos conduz a existência de uma crise de identidade.
Os elementos anteriormente
mencionados contribuem para demonstrar o conflito entre as tradições africanas
e as promessas advindas do sistema colonial, símbolo da modernidade. A falta de
consciência desse conflito despertado pela existência de dois mundos, o da exclusão
social da mulher nas tradições africana, a torna vulnerável ao aliciamento promovido pelas civilizações europeias, sinónimo de
modernidade, sem que esteja devidamente preparada para o efeito resultando em
desajustes.
Assim, de modo geral pretendemos
como objectivo:
Ø Compeender as manifestações da crise da identidade feminina em O Alegre
Canto da Perdiz da Paulina Chiziane.
Mas
a concretização do mesmo será possível por meio dos seguintes objectivos específicos:
Ø
Discutir o conceito de
identidade em O Alegre Canto da Perdiz da
Paulina Chiziane;
Ø Descrever as manifestações das personagens
masculinas e femininas que contribuem para a crise da identidade moçambicana em
O Alegre Canto da Perdiz da Paulina Chiziane;
Ø Demonstrar as implicações estético-existenciais
do comportamento da maior parte das personagens masculinas e femininas na crise
da identidade manifestada em O Alegre
Canto da Perdiz da Paulina
Chiziane.
Como estrutura esta
Monografia apresenta três capítulos, antecedidos pela introdução, a saber: O
primeiro com a revisão da literatura na qual apresentamos o estudo evolutivo
dos conceitos da identidade que caracteriza o nosso problema; o quadro teórico
onde trazemos a perspectiva assumida no estudo e a discussão dos conceitos
básicos da pesquisa, o que nos deu suporte e garantiu a cientificidade do mesmo.
No segundo capítulo, em que se encontra a metodologia que são todos os caminhos
percorridos para a produção do nosso trabalho. No terceiro capitulo
materializamos a nossa pesquisa pela demonstração das manifestações da crise da
identidade a partir da obra e por fim apresentamos as conclusões conseguidas de
acordo com os objectivos e hipóteses levantadas.
CAPÍTULO I: REVISÃO DE LITERATURA
1.1. A Mulher, a Identidade e Modernidade.
A identidade é um aspecto muito
importante na vida de um indivíduo dado que cada pessoa desenvolve a sua
própria identidade, e possuí características distintas relacionadas com a sua
história de vida, que a diferenciam dos outros.
A fragilidade da identidade torna-se
mais visível no confronto com as demais identidades , tal como afirma RICOEUR
(2007:116), o que demonstra a dificuldade do ser humano em lidar com a
diversidade e, isso acontece porque o sujeito, consciente de sua vulnerabilidade,
julga que as diferenças dos outros ameaçam constantemente o seu singular modo
de ser, com a finalidade de preservar sua identidade desses riscos que
assombram o sujeito, ele prefere afastar de si o representante da diferença.
Na obra O Alegre Canto da Perdiz, a identidade constitui um problema uma
vez que a personagem Delfina denúncia uma provável contradição no que tange a
sua própria identidade, pelo facto desta demonstrar-se insatisfeita com a sua
própria identidade negra em prol de ser branca e, por esse motivo, acaba
procurando ter um filho branco para se aliviar da sua cor e do seu sofrimento.
O processo de construção de certa
identidade pode-se considerar contínuo dado que, ao longo do tempo podemos
deparar com situações conflituantes gerando crises de identidades e podem
ocorrer em qualquer fase da vida, servem para restruturar a pessoa diante de um
mundo em constante mudança, no entanto não deixam de ser consideradas crises.
1.1.1. O Apogeu da Crise da Identidade Feminina
Nesta parte
trataremos da identidade feminina no contexto da cultura ocidental em
comparação com a cultura moçambicana. No contexto da
cultura ocidental, durante um longo período a mulher resumia-se em objecto de
manipulação e dominação, projectada em papéis sociais e estereótipos
estabelecidos pelo patriarcado, não podendo conservar seu nome nem possuir uma
identidade, nem sequer uma história, ou seja, o espaço feminino, tanto social,
imaginário ou o real, foi estabelecido pelos homens de acordo com os seus
interesses, leis e valores que definiam as mulheres em seus únicos e possíveis
papéis de mãe, esposa, filha.
Desta
forma, as mulheres permaneceram sem identidade específica, marginalizadas e,
por muito tempo, analfabetas. Não existia um sujeito feminino que se pudesse
revelar, apenas experiências femininas culturalmente determinadas, enquanto os
homens eram cercados de possibilidades de realização pessoal, profissional e
social. Mediante a desvalorização prática e simbólica, o prestígio masculino e
a sua identidade era conhecido é cada vez mais valorizada.
Na
antiguidade observou-se bastante a exclusão da mulher, mas, a partir do século
XIX assinalou-se um momento histórico em que a prespectiva de vida da mulher
começa a se modificar, permitindo que ela de alguma forma comece a se organizar
na direcção de uma identidade com apoio de diversos movimentos sociais,
políticos e económicos.
No
século XX, assistimos ao processo que vai desencadear a busca de igualdade
sendo que a mulher ascende socialmente; observa-se uma visão diferente daquilo
que era na antiguidade e no período da escravatura em que as funções da mulher,
particularmente a mulher negra incluíanm os serviços domésticos e sexuais
prestados ao senhor (o branco) e a mulher moçambicana também foi vitima dessas
situações devido ao domínio colonial.
Os materiais consultados revelam que em Moçambique, a
preocupação com as questões de género não constitui novidade uma vez que os
documentos que narram a história do país mencionam que durante a Luta de
Libertação Nacional já era promovida a integração e participação activa da
mulher através do Destacamento Feminino, não só em actividades produtivas e em
acções de âmbito social, como também em frentes de combate, acreditando-se
nessa época que a libertação do país só seria completa com a participação da
mulher.
No período pré-independência, destacou-se a Liga Feminina
Moçambicana (LIFEMO), que deu origem ao Destacamento Feminino (DF) em 1963 e a
Organização da Mulher Moçambicana (OMM), em 1973, porém, segundo estes
movimentos, este processo não era acompanhado por uma integração dos direitos
da mulher nos planos político, económico e sociais e prevalecia a desigualdade
de tratamento em relação ao homem, a quem tradicionalmente a mulher foi
colocada numa posição de submissão.
Após a independência, a mulher moçambicana foi assumindo
novos papéis, tornando-se parte importante na alfabetização, na escolarização,
nos programas de assistência sanitária e de protecção materno-infantil, facto
que criou um ambiente para o surgimento de mulheres responsáveis ao nível das
aldeias e cooperativas.
Actualmente Moçambique lançou uma série de iniciativas com
vista a fortalecer a igualdade de género e a aquisição de poder pelas mulheres.
O Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA) destaca a
necessidade de voltar a abordar a questão da desigualdade em termos de género,
em particular na educação.
Dentro do Governo, a principal responsabilidade pela
promoção da igualdade de género compete à Direcção Nacional da Mulher (DNM) que
tem por objectivo coordenar as iniciativas com vista à integração do género e a
promoção da aquisição do poder pelas mulheres nos diferentes ministérios e
tendo elaborado uma Política Nacional de Género (PNG).
As iniciativas que têm sido implementadas são prejudicadas
pela falta de instrumentos de análise, previsão e gestão de informação,
designadamente no que respeita à análise do género, pesquisa sensível ao género
e trabalho. Alia-se a este aspecto, a fraca capacidade das organizações da
sociedade civil e à falta de coordenação entre grupos de interesse das
mulheres. Com efeito, a reformulação da identidade
feminina, restituindo-lhe seu poder tal como obseva em seus estudos, o historiador
burkinês KI-ZERBO (2006:103) que ressalta os diversos papéis de poder já exercidos
pelas mulheres na África tradicional em sectores como o da religião, da
educação e da agricultura, na medida em que as actividades quotidianas
levavam-nas a controlar numeroso saberes.
Segundo
FREIRE (1999), a identidade pode se tornar um problema para o Homem quando não
tiver consciência dos seus direitos e deveres de forma consciencializada com a
realidade sócio-cultural. Assim, para percebermos é preciso pensar no lugar da
formação e transformação do Homem como um sujeito crítico em frente duma
sociedade em constante transformação, uma vez que entra em crise, face às
demandas da modernidade.
Esta crise da
identidade pode ser compreendida como um processo mais duplo de deslocamento e
mesmo de fragmentação do indivíduo moderno, como afirma HALL (2003:9), em que o
tal deslocamento entra em oposição às culturas do passado que a seu modo
forneciam aos indivíduos fortes localizações sociais e, estando em crise, a identidade torna-se uma questão.
Ainda de
acordo com o mesmo autor, o problema da identidade pode ser proporcionado por
dois factores:
·
A exigência social e;
·
A insegurança pessoal.
Relativamente à exigência social há que referir
que, pode ser pelo facto de as pessoas darem maior importância às melhores
condições de vida e, por outro lado, coloca-se a questão de insegurança
pessoal, isto é, o indivíduo caracterizar-se como variável e problemático, sem
uma identidade fixa, tal como defende MERCEI apud
HALL (2003) ao referir que a
identidade só se torna um problema quando estiver em crise ou quando
algo que se supõe ser fixo, coerente e estável é deslocado pela
experiência da dúvida e da incerteza.
1.1.2. Será que Existe Crise de Identidade?
Identidade e crise de
identidade são palavras e ideias bastante
utilizadas actualmente e parecem ser vistas por sociólogos e teóricos como
características das sociedades contemporâneas ou da modernidade tardia, no caso
concreto a pós-modernidade.
Autores como GIDDENS (1990), argumentam
que as crises de identidade são
características da modernidade tardia e que sua centralidade actual só faz
sentido quando vistas no contexto das transformações globais que têm sido
definidas como características da vida contemporânea.
De acordo com ERIK ERIKSON citado por
PERREIRA (2005), a crise de identidade é um tempo de exploração intensa das
diferentes maneiras de olhar para si mesmo. Elas podem resultar de um
cumprimento uno, a saida de casa dos pais ou de relacionamentos amorosos, troca
de emprego, de acidentes ou mesmo do processo natural de envelhecimento.
ROBINS (1997), por exemplo, aliado a ideia de
GIDDENS, defende que o fenómeno da globalização envolve uma
extraordinária transformação. Segundo este autor, a globalização envolve uma
interacção entre factores económicos e culturais, causando mudanças nos padrões
de produção e consumo, as quais, por sua vez, produzem identidades novas e
globalizadas.
ANDERSON
(1983) utiliza a expressão comunidade imaginada, para desenvolver o
argumento de uma identidade nacional, observando que, a diferença entre as
diversas identidades nacionais reside nas diferentes formas pelas quais elas
são imaginadas. As identidades em conflito estão localizadas no interior de
mudanças sociais, políticas e económicas, mudanças para as quais elas
contribuem.
As
identidades que são construídas pela cultura são contestadas sob formas
particulares no mundo contemporâneo - num mundo que se pode chamar de
pós-colonial. Este é um período histórico caracterizado, entretanto, pelo
colapso das velhas certezas e pela produção de novas formas de posicionamento.
Nos
anos 70 e 80, a luta política era descrita e teorizada em termos de ideologias
em conflito, contudo, actualmente caracteriza-se, mais provavelmente, pela
competição e pelo conflito entre as diferentes identidades, o que tende a
reforçar o argumento de que existe uma crise de identidade no mundo
contemporâneo.
É
importante aferir que, a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é
interpelado aliado às novas tendências, e estas, contribuiram para evolução dos
povos africanos no que tange aos usos e costumes, especificamente para a elevação
do estatuto da mulher, o que melhorou a sua identidade visto que actualmente
notámos uma tendência evoluitiva no que diz respeito à valorização da mulher em
cargos de maior responsabilidade bem como na incerção familiar ou social.
Nesta
senda, reiteramos que a capacidade do individuo saber acomodar-se face às
demandas da modernidade, de forma equilibrada, sem ignorar os seus valores
morais é um aspecto pertinenete para que seja evitada a crise de identidade vivida
actualmente pela mulher moçambicana que, ao tentar refazer a sua imagem, ela
assume e incorpora novas vivências, de forma excessiva tornando- a vulnerável
devido a sua ambição. Esta vulnerabilidade faz com que a identidade feminina
esteja em crise.
1.2. Discussão de conceitos
1.2.1. Identidade
Na óptica de GOMES (2004:103), “Identidade é o funcionamento do
indivíduo no sentido biopsicosocial, suas emoções, pensamentos e comportamentos
de acordo com o ambiente em que vive, com a sua maneira de entender o mundo e
com sua genética”. É o resultado das influências que o indivíduo pode ter do
mundo que o rodeia.
A posição deste autor mostra que a
identidade é um elemento relativo, isto é, cada indivíduo manifesta a
identidade de acordo com ambiente.
HALL (2005:49) argumenta que as identidades
não são coisas com as quais os sujeitos nascem, mas são formadas e
transformadas no interior da representação. As identidades não são heranças
genéticas. As pessoas não são apenas sujeitos sociais legais, elas participam
da representação em sua cultura.
O autor defende a questão de a identidade não ser algo inato, mas sim
uma formação passível de transformações.
Para FREIRE (1979:43), a identidade
se manifesta a partir das relações do Homem com a realidade, resultantes de
estar com ela e de estar nela, pelos actos de criação, recriação e decisão, ele
vai dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai
acrescentando a ela algo de que ele mesmo é fazedor. Vai temporalizando os
espaços geográficos. Faz cultura. [...] E, na medida em que cria, recria e
decide, vão se conformando as épocas históricas. É também criando e decidindo
que o homem deve participar destas épocas.
Em suma, analisando as três definições,
trazidas pelos autores, percebemos que todos são unânimes ao considerar a
identidade como algo que está dependente do Homem e do mundo que o rodeia, o
que quer dizer que o Homem decide, cria e acomoda-se ao tipo de identidade que
achar ideal embora HALL peque ao considerar que a identidade só pode ser
adquirida, ele não inclui as características genéticas.
E, simpatizamo-nos com a ideia de GOMES
(2004), segundo a qual a Identidade é
um conjunto de características que o Homem pode apresentar e que incluem
emoções, pensamentos e comportamentos, dependendo do ambiente em que estiver
envolvido.
1.2.2. Modernidade
Modernidade é, segundo GIDDENS (1991:11), o estilo, o
costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do
século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua
influência.
De acordo com o autor, a modernidade, rompe o referencial
protector da pequena comunidade e da tradição, substituindo-as por organizações
muito maiores e impessoais. O indivíduo sente-se privado e só, num mundo em que
lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecidos em ambientes
mais tradicionais.
Para KUMAR (1997:79), a expressão modernidade designa todas
as mudanças intelectuais, políticas e sociais que criaram o mundo moderno.
TOURAINE (1994:17), define modernidade como sendo a difusão
dos produtos da actividade racional, científica, tecnológica, administrativa,
marcada pela razão instrumental.
É de referenciar que estes autores olham para a modernidade
como uma expressão que marca o início de uma nova fase na história de um
determinado povo, caracterizado por mudanças radicais nas dimensões políticas,
económicas, culturais e até sociais.
1.2.3. Tradição
Do latim traditio, a tradição
é o conjunto de bens culturais que se transmite de geração em geração, no seio
de uma comunidade. Trata-se de valores que são conservados pelo facto de serem
valiosos aos olhos da sociedade e que pretendem incutir às novas gerações.
A
tradição é conforme GIDDENS (1990:37), um meio de lidar com o tempo e o espaço,
inserindo qualquer actividade ou experiência particular na continuidade do
passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por
práticas sociais recorrentes.
O
mesmo autor desenvolveu a ideia de que a tradição pode ser vista como uma cola
que une as ordens sociais pré-modernas, envolve, de alguma forma, controlo do
tempo, é uma orientação para o passado, por isso, o passado tem uma pesada
influência ou, mais precisamente, é constituído para ter uma pesada influência
para o presente.
A Tradição integra e monitora
a acção à organização tempo-espacial da comunidade, ela é parte do passado,
presente e futuro, um elemento intrínseco e inseparável da comunidade. Está
vinculada à compreensão do mundo fundada na superstição, religião e nos
costumes e pressupõe uma atitude de resignação diante do destino, o qual, em
última instância, não depende da intervenção humana, mas sim da história.
1.3. Enquadramento de O Alegre Canto da Perdiz
A obra em estudo apresenta na sua capa três cores, a cinzenta em
representação da raça negra, a branca em representação da raça branca e por fim
a castanha que submete-nos a uma ideia de miscigenação de raças. No princípio
contém o registo do nome da autora Paulina Chiziane, em seguida o título da
obra O Alegre Canto da Perdiz, a
imagem da perdiz que coincide com o título sugerido pela autora na obra, a
indicação da edição (2ª), a editora (Ndjira). Enquadra- se no periodo da Pós-
consolidação.
Na contracapa, apresenta-se um comentário deixado por Nataniel Ngomane
para além da representação dos montes, que também aparecem no decurso da
narrativa ao referir que os montes Namuli são o ventre do mundo.
A obra O Alegre Canto da Perdiz, foi
publicada em Maputo, tendo sido a 1ª edição no ano de 2008 e em 2010 a 2ª
edição. É composta por 355 páginas
divididas em 35 capítulos.
Paulina Chiziane, nascida em Manjacaze, Província de Gaza no sul de Moçambique, em 1955. Viveu sua infância no campo (sua família falava as línguas chope e ronga), aprendendo o português somente na escola e depois mudou- se para os subúrbios de Maputo. Iniciou o curso de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), porém não o concluiu.
Chiziane é considerada a primeira romancista negra moçambicana, contudo ela não assume este título, mas sim, auto define-se como uma contadora de estórias, dado que, segundo ela, as suas primeiras inspirações vêm dos “contos a beira da fogueira”. Para além da obra em análise, publicou também: Na mão de Deus (2013), Niketche. Uma história de poligamia (2002), O Sétimo Juramento (2000), Ventos do Apocalipse (1993), Balada de Amor ao Vento (1990). Em 2015 lançou o projecto África Lliberta- te em coordenação com o grupo cultural Timbila Muzimba e a obra Ngoma Yetho feita em co-autoria com Maria Martins.
Paulina Chiziane, nascida em Manjacaze, Província de Gaza no sul de Moçambique, em 1955. Viveu sua infância no campo (sua família falava as línguas chope e ronga), aprendendo o português somente na escola e depois mudou- se para os subúrbios de Maputo. Iniciou o curso de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), porém não o concluiu.
Chiziane é considerada a primeira romancista negra moçambicana, contudo ela não assume este título, mas sim, auto define-se como uma contadora de estórias, dado que, segundo ela, as suas primeiras inspirações vêm dos “contos a beira da fogueira”. Para além da obra em análise, publicou também: Na mão de Deus (2013), Niketche. Uma história de poligamia (2002), O Sétimo Juramento (2000), Ventos do Apocalipse (1993), Balada de Amor ao Vento (1990). Em 2015 lançou o projecto África Lliberta- te em coordenação com o grupo cultural Timbila Muzimba e a obra Ngoma Yetho feita em co-autoria com Maria Martins.
Na sua obra retrata frequentemente
temas relacionados com as vivências de tempos difíceis, da esperança, do amor,
da mulher e de uma África passada e presente, um país destruído, da miséria de
seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte.
A Obra em análise tem como título O Alegre Canto da Perdiz, sobre o qual a autora, numa entrevista a Gil Filipe no Jornal Notícias em Maio de 2008 afirma: “Dizem umas vozes muito idosas (...) que os montes Namuli foram criados no ovo de uma perdiz. Então, é daí que achei formidável criar o título a partir desta mitologia e destas estórias de uma terra também formidável.” (CHIZIANE apud. BRAGA, 2008).
A Obra em análise tem como título O Alegre Canto da Perdiz, sobre o qual a autora, numa entrevista a Gil Filipe no Jornal Notícias em Maio de 2008 afirma: “Dizem umas vozes muito idosas (...) que os montes Namuli foram criados no ovo de uma perdiz. Então, é daí que achei formidável criar o título a partir desta mitologia e destas estórias de uma terra também formidável.” (CHIZIANE apud. BRAGA, 2008).
Falando especificamente, nesta obra
levanta questões para reflexão sobre a realidade das sociedades africanas:
relações entre dominados e dominadores, conflitos intra e inter-étnicos, choque
de interesses do universo colonial, ou seja, mecanismos de sustentação e
reprodução, dominação, coacção e exploração (racismo, assimilação, casamento
prematuro, a prostituição infantil, conflitos de gerações, violência doméstica,
mestiçagem, discriminação ético-racial e de género, embate entre culturas,
relações de poder),
diversos mitos de origem matriarcal africano,
portanto, faz uso de personagens com destaque a Delfina, Serafina, Maria das
Dores, mulheres marcadas e dominadas por uma sociedade que lhes reduz as
possibilidades individuais para além de José dos Montes e Soares.
1.4. Síntese da obra O
Alegre Canto da Perdiz
O romance começa com Maria das Dores,
que caminhou solitária durante tantos anos a procura de seus três filhos:
Benedito, Fernando e Rosinha. Feita uma louca, dirige-se até às margens do rio
Licungo, onde tomou banho nua, transgredindo a norma daquela região de Gurue.
A atitude de Maria das Dores colocou em
pânico as mulheres da região que, furiosas e assustadas devido aos mitos que
envolvem as suas mentes, tentaram expulsa-la atirando pedras e paus, contudo,
ela limitava-se a olhar para a multidão.
Enquanto as multidões se preocupavam com
a sua nudez, Maria das Dores ficava meditando acerca dos que perguntavam de
onde vinha, gritavam sobre a sua própria desgraça e lhe chamavam de louca. Ela
considerava loucas aquelas mulheres prisioneiras, cobertas de mil peças de
vestuário como cascas numa cebola.
Após várias insistências, as mulheres
decidiram ir à casa do régulo para abordar a situação da louca do rio à sua esposa e esta, por sua vez, apaziguou a
tempestade contando histórias explicando também que a mulher trazia uma boa
nova escrita do avesso, não se tratava de nenhum presságio ou anúncio de seca.
Os dias passaram e a cidade de Gurue
tornou-se um lugar de peregrinação. Para além da Maria das Dores, chegaram dois
irmãos: o Padre Benedito e o Dr. Fernando que tinham também algum motivo de
espanto, pois, eles apesar de estarem envolvidos num mundo moderno, estavam
despidos de sentimentos mundanos, de posses, de beleza das mulheres e vaidades
do quotidiano, por essa razão, as mulheres enchiam-lhes de perguntas na
tentativa de perceber se eram homens e de onde vinham.
Delfina, mãe de Maria das Dores, em
princípio casara com José dos Montes com quem gerou os dois filhos negros
(Maria das Dores e Zezinho). Pela sua ambição obrigou ao seu esposo a
desenvolver actividades de sipaio o que fazia com que fosse tratado como
assimilado, passando a desprezar a sua raça e a renegar todas as instituições,
usos e costumes do grupo no que se refere à língua, religião, vestuário e
alimentação.
José dos Montes, destacado como um dos
melhores soldados ou sipaios, ao serviço do salazarismo e do colonialismo, teve
que exercer suas actividades longe de sua família, o que contribuiu para que
Delfina sua esposa, mesmo sendo negra tivesse um envolvimento com o Português
Soares (colonizador).
Da relação entre o branco e a negra
nasceu uma mulata (Jacinta) terminando desta forma o casamento com José dos
Montes, o negro assimilado e, por essa razão, Delfina decide unir-se ao
Português apesar de ser casado, com ajuda de bruxaria de Simba que, para além
de feiticeiro, fora também seu amante.
Assim, Delfina ganhou a vida luxuosa de
que tanto sonhava desde a adolescência, isto é, casar com um branco, ter filhos
brancos e ter uma vida de princesa. Passou a vida a descriminar raças, até aos
seus próprios filhos, tinha actividades e direitos diferentes: aos dos filhos
negros, Maria e Zezinho, competiam os serviços de casa enquanto aos filhos
mulatos competia estudar, pois, segundo ela, os pretos não precisavam de
escola.
A vida de princesa durou pouco tempo.
Arrependido, Soares despediu-se de Delfina e voltou para sua casa deixando toda
herança para os filhos mulatos e negros, portanto, Delfina passou dificuldades
financeiras que conduziram- lhe ao velho Simba para mais uma bruxaria, mas este
se recusou pedindo em troca algo valioso e fragilizada, a mulher ofereceu a
virgindade de sua filha Maria das Dores o que em nada resultou.
Casada com Simba a
favor da mãe, Maria teve três filhos, os quais foram mencionados no princípio
da história. Pelo sofrimento, decidiu fugir até aos Montes Namuli, aonde seus
filhos vieram a ser criados por uma freira.
Os irmãos de Maria das Dores foram
também criados na casa das Irmãs até que Jacinta se casou com um branco.
Delfina perdera deste modo os quatro filhos. Foi enfrentada por sua filha
Jacinta em pleno dia do casamento por ter vendido a irmã Maria das Dores e
expulsa da Igreja pela imoralidade. Já pensava nas suas maldades, mas, era
tarde, tinha ficado solitária.
Passaram trinta anos, José dos Montes
reconciliou-se com Delfina, Maria das Dores encontrou os seus filhos. Simba
reencontra os filhos e sua esposa, juntos formaram uma família.
CAPÍTULO II: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
2.1. Tipo de Pesquisa
No presente trabalho,
propusemo-nos a estudar a Crise da moçambicanidade Feminina em O Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane e, para o efeito, adoptámos a pesquisa qualitativa porque expressa o sentido dos fenómenos do mundo social
para além de que a natureza dos dados a serem explorados não são
matemáticamente mensuráveis, isto é não precisaremos medir os dados colectados,
uma vez extraídos da obra e, conferido por ARAUJO e OLIVEIRA, (1997:10), esta
pesquisa traz consigo, técnicas interpretativas para a descrição e
descodificação dos componentes de um sistema complexo de significados.
2.1.1. Métodos de
abordagem
O método de abordagem privilegiado nesta
pesquisa é o hipotético-dedutivo visto que, para analisarmos o comportamento
das personagens duma obra em função do tema colocado, adiantamos as nossas
percepções sobre o fenómeno que nos propomos discutir e em seguida deduzimos
algo, isto é, criamos ilações e aliada à ideia anterior, MARCONI & LAKATOS
(2009:145), colocam o método
hipotético-dedutivo como o que “inicia
pela prospecção de uma lacuna no conhecimento, acerca da qual se formulam
hipóteses. Pelo processo de inferência dedutiva, testa a predição da ocorrência
de fenómenos descritos pela hipótese”.
No caso específico da obra O Alegre Canto da Perdiz, partiremos de
algumas deduções constatadas através do percurso das personagens, como o caso
da fragilidade apresentada por personagem Delfina
que, pensamos numa possibilidade de abandono do normal tradicional da sua
região, neste caso Moçambique, para abraçar uma forma de vida que coloca em
crise a sua identidade e a partir deste pressuposto traremos as possíveis
conclusões sobre o tema.
2.1.2. Método de
procedimento
Para a análise desta
obra, o método é monográfico (estudo do caso), pois, faremos um estudo da crise
da moçambicanidade feminina na obra O
Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane, bem como a pesquisa
bibliográfica que garante nos a cientificidade da abordagem, o que contribuirá na
colocação das nossas opiniões, tendo em conta que, de acordo com
GRESSLER (2003:87), num estudo cientifico não se
deve pautar somente pela colocação de opiniões pessoais a cerca dos dados em análise.
2.1.3. Metodos de recolha de dados
Baseado na pesquisa bibliogáfica,
segundo REIS (2010:106) consistiu na leiturificoa e fichamento de todo material
relacionado com a identidade e crise da identidade feminina, de seguida
realizamos a pesquisa documental que, é um processo de leitura e recorte de extractos que abordam de forma particularizada o
complexo de inferioridade como identidade, o conflito entre modernidade
e tradição bem como a descrição das caracteristicas da crise da identidade das
personagens apresentadas no decurso do romance O Alegre Canto da Perdiz da Paulina
Chiziane,tendo em conta os dezasseis capitulos narrados na obra de um universo de trinta e cinco e, finamente a
comparaçao dos factos com realidade actual vivida em Mocambique, de modo a
descobrirmos o seu impacto na tradição local, e como forma de garantir a cientificidade
da pesquisa foi necessário visitar e cruzar matérias de teóricos que tratam
deste tema.
2.1.4.
Método de análise de dados
Para levar a
cabo a nossa pesquisa, pautamos pela
análise de conteúdo, tal como sugerem OLABUENAGA e ISPIZÚA, citados por MORAES
(1994) é uma técnica para ler e interpretar o conteúdo de toda classe de
documentos, que analisados adequadamente nos abrem as portas ao conhecimento de
aspectos e fenômenos da vida social de outro modo inacessível.
A nossa análise tal como sugere MORAES (1994)
passou em principio pela preparação das informações referentes à identidade e
da crise de identidade feminina na obra O
Alegre Canto da Perdiz de Paulina Chiziane que consistiu na seleção de
passagens textuais com essas marcas, seguidamente agrupamos os conteúdos em
unidades bem como a classificação das mesmas em categorias sendo: (i) o
complexo de inferioridade como identidade, (ii) a modernidade como o ponto mais
alto da crise de identidade , (iii) as marcas da crise de identidade para
posterior descrição de um dos elementos
que propusemonos a estudar que teve como base a interpretação de todos
extractos retirados da obra, isto é,
expressamos os significados captados e intuídos nas mensagens analisadas,
por fim a Interpretação feita através de uma exploração dos significados
expressos nas categorias da análisadas.
CAPITULO III. A CRISE DA MOÇAMBICANIDADE
FEMININA ALEGRE CANTO DA PERDIZ DE
PAULINA CHIZIANE
3.1. O complexo de inferioridade como identidade
Todo povo colonizado desenvolve um
complexo de inferioridade em decorrência da destruição de sua própria cultura.
No entanto, antes de exterminar a cultura do outro, o colonizador europeu
construiu a sua identidade servindo-se de modelos fixos e imutáveis. Além do
esforço para apagar a história dos povos oprimidos, o colonialismo europeu
procurou inferiorizar seus hábitos, costumes, alimentação, as vestes, língua
entre outros, ao mesmo tempo em que exaltava a cultura do colonizador. Deste
modo, o nativo africano, por exemplo, era pensado e representado pelo europeu
ora como um bom e inocente selvagem, porém incapaz de cuidar de si mesmo, ora
como uma criatura bestial e perigosa que precisava ser controlada. Assim, tanto
a visão que bestializa quanto a que infantiliza o oprimido, justificaram as
atitudes tomadas pelos colonizadores com o intuito de subjugar as populações bárbaras. (BHABHA, 1998:105)
Considerando que a vida do negro africana
dominada gira em torno de buscar identificar-se com o branco, tentando deixar
no máximo possível de ser parecido com o negro pelo abandono de seus costumes e
pela negação de sua cultura, isto é, de afirmar-se perante o branco, há que
evidenciar que, a busca constante de identificação com o branco é uma
característica da protagonista do romance em estudo que, de tanto acreditar na
superioridade dos brancos procura identificar-se com o mesmo.
O
meu estatuto é maior a partir de agora! Mãe de mulata. Concubina de um branco...
Erguerei esta criatura como uma bandeira branca, acenar aos marinheiros e
dizer: sou vossa! Juntei o meu sangue ao vosso na construção de uma nova raça (CHIZIANE,
2010:193).
O complexo de inferioridade é revelado
ainda no romance com a atitude de Serafina, mãe da protagonista, ao incentivar
a sua filha a não casar-se com um negro, contudo, há aqui um preconceito
caracterizado por atitudes ou comportamentos negativos da parte de um indivíduo
direccionados a outros indivíduos ou grupos e baseados num julgamento prévio,
neste caso, a inferioridade dos outros está baseada em atributos morais
conferidos a um grupo de pessoas que possuem características físicas
semelhantes, por isso, o poder colonial em O
Alegre Canto da Perdiz precisou
reforçar cada vez mais a diferença do outro e fazer com que ela fosse vista
como marca de inferioridade.
Outra
marca de inferioridade, descrita na obra é a política assimilacionista de
Portugal que, previa a colonização do indígena por meio de dois pilares:
educação e trabalho, onde a educação ficou quase exclusivamente a cargo da
Igreja Católica. A essa instituição cabia preparar, desde cedo, o aspirante à
assimilação para tornar-se um bom cidadão pelo ensino que compreendia leitura e
escrita em LP e o aprendizado das ‘artes e ofícios’ (trabalhos manuais
considerados importantes na Colónia). O futuro assimilado deveria, a partir
desse momento, abandonar o uso da língua materna e se esforçar para aprender a
língua da Metrópole, considerando que ela era mais evoluída.
Então, o romance de Chiziane mostra a
história do negro José dos Montes que na companhia de sua esposa Maria das
Dores, vislumbra na assimilação a possibilidade de ingresso nos trabalhos e
cargos reservados, até então aos brancos. Jura,
renuncia, mata tudo para nascer outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a
tua crença. Vamos, queima os amuletos, os velhos altares e os velhos espíritos
pagãos… (CHIZIANE, 2010: 123).
Há que referir que, a política
assimilacionista portuguesa em Moçambique, provocou crise da identidade do
sujeito colonizado que, a partir daí não pertencia a nenhuma das categorias que
formavam a sociedade que integrava. Na falta de uma identidade que o
enquadrasse dentro do sistema vigente, o assimilado precisou buscar uma
categoria na qual se encaixasse. Surge então uma terceira categoria de
indivíduos: a do nativo que não faz mais parte de um grupo étnico tradicional e
também não é um cidadão português pleno.
Apesar de ter-se transformado num negro
assimilado, trata-se ainda de um cidadão de segunda classe, um cidadão de
categoria inferior tendo em conta que não consegue alcançar o objectivo de se
identificar com os colonizadores, pois para eles continua sendo o outro.
O racismo foi utilizado para explicar as
desigualdades sociais e económicas que excluíam a maior parte da população
colonial e legitimar o direito do europeu, de explorar as populações dominadas,
por isso, o poder colonial precisou reforçar cada vez mais a diferença do outro
e fazer com que ela fosse vista como marca de inferioridade. No caso das
populações negras, além de costumes, tradições, língua e alimentação
diferentes, há uma marca distintiva que é automaticamente vista e
estigmatizada: a cor da pele.
Vais casar
com um preto… Com tantos brancos que te querem bem. Não custa nada eliminar a
tua raça para ganhar a liberdade. Temos que resistir, Delfina, temos que
resistir. Temos que nos submeter à vida que nos impõem, acreditar no Deus
deles, esse ser invisível e sem forma
concreta. (CHIZIANE, 2010:106)
3.2. A modernidade: Ápice da
crise da identidade feminina
O papel social da mulher torna-se
subjectivo na medida em que, vai incorporando novos hábitos, novas vivências e outra
forma de estar na sociedade, o que remete-nos a uma nova forma de estar e ser
da mulher devido a coabitação de novas formas de estar da sociedade, traços
obtidos com o contacto de novos povos, abandonando deste modo a cultura
tradicional, passando a vigorar as novas vivências. Neste contexto, nota-se na
obra O Alegre Canto da Perdiz, um
abandono passivo da sua própria cultura, aliado as discrepâncias social negro/
branco em que o ser branco é visto pelas personagens feminas, como algo moderno
e respeitado.
Lembra-se de tudo, da terra e
do mundo. Onde a cultura dita tudo sobre homens e mulheres... o dinheiro vale
mais que a vida... o mulato vale mais do que o negro e o branco vale mais mais
do que todos eles... a cor e o sexo determinam o estatuto de um ser humano. (CHIZIANE, 2010: 28)
Nota-se
ainda na obra que, a modernidade não caracteriza apenas a personagem Delfina,
trata-se dum legado que domina até a sua própria mãe Serafina, embora com certa
resistência pois ela pensa numa mudança mas, conserva na sua consciência o
valor da sua identidade. Porque não me
fizeste com um branco, mãe?Felizes são as mulatas e brancas, que nasceram com
diamantes no corpo... Para quê essa tortura? És preta e ainda bem. (CHIZIANE, 2010: 88)
Ainda na obra O Alegre Canto da
Perdiz, Maria das Dores, filha de Delfina... uma mulher... colocando sua intimidade na frescura do rio... (CHIZIANE, 2010: 12) é uma ilustração das formas modernas femininas que caracterizam a maior
parte das mulheres moçambicanas, referimo-nos às formas de vestir e ao seu
comportamento que podem ser considerados modernos num universo, que é a
sociedade detentora daquilo que são as normas fixas desta, as quais quando
deslocadas criam um problema na identidade, sobretudo a desta mulher.
3.3. A Crise de Identidade Feminina
Em Moçambique tal como se ressalta na obra, assistimos cenas femininas,
semelhantes ao comportamento de Maria das Dores, questionadas pela sociedade,
que para elas nada esteja fora do padrão é apenas uma forma globalizada do
mundo, ao que podemos chamar modernidade...
Porque estás nua?... Sera que estou nua mãe? A nudez que elas viam não e a minha
e a delas... elas... cobertas de mil peças de roupa como cascas de cebola. Com
calor que faz. (CHIZIANE,
2010: 17)
Apesar das recomendações da mãe, Delfina
insiste casando com José dos Montes e convence-o no a transformar-se num
assimilado, ainda que para isso tenha que eliminar os traços de sua etnia e
história, perseguir seu povo e renegar suas tradições, trocando, por exemplo, o
uso da língua materna pela do colonizador, mudando sua maneira de vestir e de
se portar, ela sabe, no entanto, que a assimilação não chega a ser suficiente
para garantir-lhe a liberdade e a vida moderna que sempre sonhou e, por isso
acaba gerando um filho mulato, fruto de uma traição. Sei onde ir buscar a fortuna que precisamos meu amor... Sim. Basta
sermos assimilados do regime. É a única saída... A assimilação era o único caminho
para a sobrevivência (CHIZIANE, 2010: 122-123).
É compreensível a recusa do pai de
Delfina em se assimilar, pois apesar de significar um futuro melhor para a
família, esse processo representava uma humilhação para os nativos, mais que
isso, representava o total aniquilamento do indivíduo. Consistia em um ritual,
no qual o chefe de família comparecia perante uma autoridade da Metrópole
devendo prestar um juramento em que negava e repudiava todos os costumes e
valores tradicionais, passando a assumir a cultura europeia, facto que era
extremamente degradante para o indivíduo que fora criado dentro de uma
sociedade que preza sobre todas as coisas, a tradição passada através das
gerações.
Ao confrontar-se com o ‘não lugar’, ‘não
ser’, ‘não pertencer’ ou falta de identidade dentro das categorias sociais até
então disponíveis, é impelido a procurar uma identidade a que possa se
acomodar, não sem antes lutar com uma imensidão de sentimentos conflituantes. É
o que acontece no romance com José dos Montes ao ser contemplado pela mulher.
...jura mata a tua língua bárbara, jura,
renuncia, mata tudo para nascer outra vez... O oficial entregou um envelope
lacrado contendo dinheiro para comprar roupas condignas com o novo estatuto.
Muito dinheiro. Delfina observa o marido a mudar de identidade, como uma cobra
na mudança de uma estação. Arregalava os
olhos e soltava suspiros de cada vez que trajava mais uma nova peça (CHIZIANE,
2010: 124).
A vida de Delfina e José dos Montes
passa a partir destes episódios por uma fase que é considerada crise, a
identidade torna-se uma questão proporcionada pela exigência social e pela
insegurança pessoal. (HALL, 2003: 9).
A escritora remete-nos
ainda a uma situação de um sujeito colonizado, neste contexto a mulher
moçambicana que passa por processos de submissão, opressão e o conformismo
diante das imposições sociais, tendo em conta a história de Maria das Dores
que, vendida aos 13 anos por sua mãe a um feiticeiro, suporta anos de violências
físicas e psicológicas nas mãos desse homem, factores que somados a outros
eventos desencadeiam a loucura na personagem... que vendeu a virgindade da filha para melhorar o negócio do pão.
(CHIZIANE, 2010: 305).
Face
a estas circunstâncias, Maria das Dores agiu feita uma louca, caminhando até a
margem do rio Licungo, onde fez um mergulho desviando as normas daquela região...essa mulher que tem a coragem de se banhar num lugar privado dos nossos
homens, quebrando todas as normas do local, quem é? (CHIZIANE, 2010: 12)
A atitude da louca do rio, tal como era tratada numa primeira fase pela
multidão da região de Gurue, pode ser analisada em duas perspectivas, em
principio uma forma de estar que acomoda a personagem e em segundo lugar como
uma perda no que diz respeito aos valores morais da região, isto é, a mulher
quebrou a tradição, razão pela qual a multidão de mulheres faz um discurso crítico
a esta atitude.
As mulheres
preparam o sermão do momento, feito de ameaças... Quem és tu? Insistiam as mulheres
furiosas... As pessoas gostam de identidades... mulher não tens vergonha na cara?
Não tens pena das nossas crianças cegarem com a tua nudez? (CHIZIANE, 2010:14)
É curioso que enquanto o povo se preocupava em questionar a sua identidade,
em resposta metafórica diz ser uma estátua de barro, isto é, reconhece que é
negra apesar das suas diferenças, essa é a sua própria identidade... já sei bem de onde vim...querem saber o
que sou, porque nada sou...quem sou eu? Uma estátua de barro no meio da
chuva... odeio a roupa que me limita o voo. (CHIZIANE, 2010: 17)
Estamos
conscientes de que as trocas culturais entre os africanos, asiáticos e europeus
foram um dos factores que também se reflectiu na forma de vestir, que se
arrasta desde o período da colonização e, ainda mais, actualmente a mulher
moçambicana vive essas transformações, face às demandas da modernidade pondo em
crise a sua identidade, visto, ela ser a maior vítima em relação ao género
masculino o que continua sendo questionado pela sociedade e, na obra O Alegre Canto da Perdiz a personagem Maria das Dores é o nosso ponto de referência. Quem é ela?... uma mulher negra, tão negra como as
esculturas de pau- preto...De onde veio? (CHIZIANE, 2010: 17)
Outro sinal de crise, é o facto de a mãe da
Delfina ficar indecisa em relação ao destino da sua filha
que, para ela parecia ser o sinal de quem ficasse restrito à convivência entre
moçambicanos bem como uma espécie de candidatura para gerar mais pretos e mais
desgraças, Casar?... A mãe solta um grito de espanto. Amargo espanto como se uma
espinha se entalasse na garganta... melhora a tua raça, minha Delfina!...casar
com um preto?(CHIZIANE, 2010: 96). Interagir com os brancos era render-se à
transformação social, ainda que sob a condição irrefutável de apagamento de
todas as tradições, valores e crenças e, José não sendo branco, não podia casar
com a filha uma vez que, o preto era um individuo na condição de condenado.
.... o estigma da
raça deixou sementes cancerigenas, que se multiplicam como a raiz de um crâncro
e, matarão gerações, mesmo depois da partida dos marinheiros... Descobre em si
um pobre preto candidato a noivo, de mãos vazias, sem anel, nem carteira. Os
calções de condenado nem se quer tinham bolsos (CHIZIANE, 2010:97).
O problema das raças evidencia também as crises identitárias, através das
personagens narradas na obra, como podemos observar a situção passada por
Delfina durante a sua infância.
A confusão de raças na sua mente de criança, de baixo do mesmo tecto,
numa mistura difícil de misturar, como leite e limão numa mesma chávena... a
tua família onde está? …no dia em que o pai negro partiu minha mãe não chorou.
Embriagou - se... no dia em que o meu pai branco partiu a minha mãe chorou e
desmaiou. (CHIZIANE,
2010: 31)
Essa mistura de raças faz com que as personagens revelem uma atitude
optimista, Delfina que é protagonista no romance O alegre Canto da Perdiz, fica num dilema de identidades, ao lado
dos negros é negra e ao lado dos brancos é também branca, encontra-se numa
crise identitária, neste caso, resultante da convivência familiar. Para ela a
experiência do ocidente é melhor que a das suas próprias origens como podemos
observar nas suas palavrs... mas tudo
começou no dia em que o pai negro partiu para não mais voltar... quando o pai
branco amou a sua mãe... quando nasceu a sua irmã mulata... (CHIZIANE,
2010:12)
CAPITULO IV. CONCLUSÕES e Sugestões
De acordo com os objectivos e hipóteses que definimos no início desta
pesquisa e olhando para a fundamentação teórica dos diversos autores que nos
subsidiaram sobre o conceito de identidade no geral e a feminina, em
particular, de que nos socorremos e analisada a obra O Alegre Canto da Perdiz da escritora moçambicana Paulina Chiziane,
chegamos às seguintes conclusões:
- A crise da identidade
feminina manifesta-se em quase todas as personagens femininas narradas na
obra, contudo, é mais evidente com a Delfina,
que regeitando o modo de vida africano vive um conflito identitário,
comportando- se num momento como branca e noutro como negra, forçando o
marido a tornar- se sipaio e mudando os seus hábitos alimentares, educação
dos filhos, vestes, contudo, em caso de problemas sérios recorre ao
currandeirismo que é mesmo, um sinal de reconhecimento ao valor da sua
cultura.
·
A colonização teve
um impacto positivo para as sociedades colonizadas, particularmente a
moçambicana, na medida em que na sequência do cumprimento e da satisfação das
suas intenções de ganhar a mão-de-obra barrata, às pessoas passaram de
iletradas para alfabetizadas, e ao mesmo tempo passaram de uma religião
tradicional africana para o catolicismo;
·
A colonização teve um impacto negativo ao
incutir nos nativos o espírito de desvalorização dos seus traços naturais,
desde a cultura língua, a maneira de vestir, alimentação. Antes
de exterminar a cultura do africano, o europeu construiu a sua identidade
servindo-se de modelos fixos e imutáveis. Deste modo, o nativo africano, por
exemplo, era pensado e representado pelo europeu ora como um bom e inocente
selvagem, porém incapaz de cuidar de si mesmo, ora como uma criatura bestial e
perigosa que precisava ser controlada;
·
No âmbito da
modernidade, a mulher encontra-se numa situação mais vulnerável relativamente
ao homem, uma vez que para além da assimilação propriamente dita, ela passa por
situações embaraçosas, incluindo a prostituição infantil e casamentos
prematuros;
·
A crise de
identidade pode ser provocada pela incapacidade do indivíduo de se manter na
sua origem, por causa da falta de auto- estima, desvalorizando-se a si próprio
e procurando adoptar aquilo que acha como modelo e mais importante, neste caso
a raça e a vida do colono;
·
O problema da identidade pode ser proporcionado por dois factores: a
exigência social e a insegurança pessoal;
·
A narrativa da Paulina
Chiziane coloca-nos a recordar a história dos povos moçambicanos e as situações
que estes sofreram advindos do sistema colonial.
Sugestões:
- Que os professores da LP
ou literatura e História mostrem detalhadamente aos alunos o historial dos
povos colonizados, particularmente os moçambicanos e o processo de
assimilação pelo qual muitos passaram;
- Que explicitem as
consequências sociais que a assimilaçao trouxe aos moçcambicanos, com
destaque a quebra da auto‐estima e a consequente crise da identidade;
- Que mostrem a
vulnerabilidade da mulher ate aos dias de hoje, na adopção do alheio em detrimento
da sua realidade natural (como por exemplo, o uso de maquilhagens, de
cabelos que vulgarmante chamamos de estenções tudo uma das formas de
assimilação);
- Que as instituições de
tutela principalmente as vocacionadas com o trabalho com as mulheres,
implementem programas culturais e de educação moral e civica tendentes ao
resgate e manuntenção das qualidades da identidade moçambicana.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAÚJO, A. O. & OLIVEIRA, M. C. Tipos de Pesquisa. Trabalho de
Conclusão da Disciplina Metodologia de Pesquisa Aplicada. São Paulo, 1997.
BEAUVOIR, S. Segundo Sexo. São Paulo: Difusão Europeia, 1967.
BHABHA,
H. K. (ed.): Nação e Narração. Lisboa. Almedina. 1998
BOURDIEU, P. A Dominação Masculina. São Paulo, 1997.
BRAGA,
J. P. Entre dois Mundos: Um Olhar sobre a
Loucura Feminina nos Romances “O Alegre Canto da Perdiz”, de Paulina Chiziane e
A Louca de Serrano, de Dina Salústio. Universidade da USP
CARNEIRO, S. Identidade Feminina, Mulher
Brasileira é Assim. Rio de Janeiro, 1994.
CHIZIANE, P. O Alegre Canto da Perdiz. 2ª Edição.
Ndjira, Maputo, 2010.
Dicionário
da Língua Portuguesa. II Vol. Academia das
Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001.
FORTIN, M. F. O Processo de Investigação da Concepção `a Realização. Courés,
Lusociência, 2009
FREIRE, P. Cartas à Guiné-Bissau: Registos de Uma Experiência em
Processo. 4ª ed. Rio de janeiro, 1999.
GIDDENS,
A. As Consequências da Modernidade. 2ª
Ed. São Paulo, 1991.
GIDDENS,
A. Politica, Sociologia e Teoria Social. São
Paulo. Uni SP, 1990
GOVERNO DE MOÇAMBIQUE. Política de Género – Estratégia de
Implementação. Maputo 2006
GRESSLER, L. A.
Introdução à Pesquisa: Projectos e
Relatórios. São Paulo:
Edições Loyola, 2003.
HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de
Janeiro: DP&A, 2003.
KI-ZERBO, J. Para Quando a África?
Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro, 2006.
KUMAR, K. Da Sociedade
Pós-Industrial a Pós-Moderna. Novas Teorias Sobre o Mundo Contemporâneo.
Rio de Janeiro, 1997.
LAKATOS, E.M. & MARCONI, M. A. Fundamentos de Metodologia Científica.
3ª Ed. São Paulo: Atlas, 1991.
MORAES,
R. Análise de Conteúdo. Revista
Educação, Porto Alegre, v. 22, 1999.
Normas
para Produção e Publicação de Trabalhos Científicos, Universidade
Pedagógica. Maputo, 2009.
PERREIRA, F, Crise de Identidade [online] Disponível na Internet via W.W.W.
Psicologia 10.Com. br. Erik Erikson.10 de Junho de 2005.
REIS, F. L. Dos. Como Elaborar uma Dissertação de Mestrado Segundo Bolonha. Lisboa,
2010.
TOURAINE,
A.Crítica
da Modernidade. Petrólis: Vozes, 1994.
Sem comentários:
Enviar um comentário